Perdendo o meu emprego

Publicado em

Eu bem que incitei amigos a escreverem posts sobre suas refeições inesquecíveis e até prometi que daria um presente especial na abertura do MIMO para o melhor relato. Mas depois da publicação do primeiro post do amigo Tiago Clemente, outros ficaram tímidos e estão me enrolando até agora.

Por sua vez o Tiago se empolgou e já quer tirar este meu emprego! Tenho que tomar cuidado porque fiquei tanto tempo sem aparecer por aqui que se eu não fosse a moderadora do site ele já teria tomado o meu lugar.

Então não posso me demorar para dar crédito a ele do texto abaixo. Se bem que conta com seu humor e ponto de vista peculiar que, para quem o conhece pessoalmente, é inconfundível (pelo menos com o meu humor e ponto de vista, não?). Vamos lá.

 

ONU da Gastronomia

Há um ponto onde a culinária mundial se encontra e não é na esquina da Ipiranga com a Avenida São João. Embora na
região há diversos deles. Falo do buffet, mais especificamente do tradicional restaurante por quilo que existe ao milhares pelo Brasil e que é renegado pelo mundo gourmet.

Nele é possível encontrar em refratários vizinhos um especial de camarão (quase sempre duvidoso) ao lado do estrogonofe de frango, seguido de um inox com sushi que está colado com o leitão a pururuca que faz fronteira com o cassoulet, margeia o penne ao alho e óleo e as nunca esquecidas batatas fritas.

Já na quarta-feira a feijoada reina, mas sempre acompanhada de uma massa (porque não?) ou do bendito cação mergulhado em azeite (ou seria óleo?).

No restaurante por quilo diversas influências culinárias (mediterrânea, japonesa, francesa, italiana) se encontram e se harmonizam (?!?), há algo mais brasileiro do que esta miscigenação? (certeza que alguém mais dotado já fez esse paralelo). Mas esta harmonia nem sempre se repete no estômago do nobre trabalhador que consegue fazer um menu degustação de 10 pratos num único prato (ou alguém vai pegar a fila várias vezes?).

Ali a picanha, o salmão, o penne, o ovo estalado, o tomate e uma folha de alface tentam com muito esforço se equilibrar com a batata noisette que invariavelmente vai ao chão, afinal o nosso artista do Circo do Seo Léo tenta jogar um aspargo e uma coxinha por cima de tudo.

Sem esquecer as quantidades de molhos que são verdadeiros tsunamis em qualquer intestino: molho de hortelã para o carneiro, de alcaparra para o salmão, pimenta para o pastel, molho “à bolonhesa” para a massa, shoyo para o sashimi e o azeite para a folha de alface que nos remete àquele sopão que por geração espontânea desenvolveu a vida na Terra.

As comidas, por ficarem se encoxando dentro do prato e rodamoinhos de molhos, não têm mais o seu gosto original, isto é, você acha que está comendo um filé à parmegniana mas verdade trata-se da torta de frango. O tomate certamente tem gosto de aspargos, quando não, chorem, de peixe. Aliás, o que não fica com o gosto do peixe? Desconfio que essa desconstrução do gosto, possivelmente, deu uma luz em Ferran Adrià para criar a gastronomia molecular, ou não?

Bom almoço a todos!

Anúncios

Uma opinião sobre “Perdendo o meu emprego

    […] foi escrito por mim. Muitas vezes este fato me tornou motivo de chacota por parte do amigo autor do relato mais acessado, até que, dia desses, vingança!, o recorde de visitas foi […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s