Cultura(ndo) à mesa

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No apagar das luzes ontem consegui conferir o último dia da Mostra Cinema à Mesa que contei aqui.

Como não se deliciar com “Agata e la tempesta” acompanhada de ciabatta com pasta de alcachofra, polenta com cogumelos e mousse de chocolate branco com coulis de frutas vermelhas?

E se a noite começou leve e divertida, terminou com a emoção à flor da pele. Chorei pela quinta vez ao assistir “Nuovo Cinema Paradiso” me deliciando com as paisagens da Sicília, além do arancini, do farfalle com abobrinha e pancetta, e do sorbet de limão siciliano servidos durante a projeção.

Numa semana de atividades culturais intensas ainda ontem li por acaso uma frase do filósofo espanhol Ortega y Gasset que diz (não vou traduzir) el hombre naufraga en el mar de la existencia y los movimientos natatorios que hace para no ahogarse en ese mar, son la cultura. 

Fui dormir pensando nisso. Tudo o que o homem agrega à natureza é cultura. O homem é um e as culturas são muitas. E, claro, as cozinhas refletem essa diversidade, mas também refletem uma unidade, afinal, não importa como se nade, ninguém quer mesmo é naufragar.

Estamos num tempo que a inovação é retornar às raízes, buscar a simplicidade, retomar hábitos alimentares anciãos sem perder o que a tecnologia nos trouxe de mais útil. Que os países buscam afirmar uma identidade nacional, principalmente os colonizados que não mais aceitam que são meros caldeirões de culturas estrangeiras.

Por isso mesmo a gastronomia tem sido tão fascinante nos últimos anos e peça fundamental nesse movimento de elevação das culturas nacionais. Por isso mesmo que ela combina com um filme como o Cinema Paradiso. Por isso mesmo que ela anda na boca de filósofos, antropólogos e estudiosos em geral que divagam teses e mais teses sobre o hábito de comer (OK, temos que tomar cuidado quando as pessoas se levam a sério demais, mais romantismo por favor! Mais delicadeza! Estamos com fome de ideias, mas alimentar nossos estômagos ainda é a função principal).

Por mais que tenha muito de moda e marketing em tudo isso, é prazeroso não só sermos (re)apresentados a ingredientes e hábitos alimentares de nossos antepassados, mas também ver o movimento se alastrando por países com cultura tão rica, tão próxima e tão distante da nossa. O Brasil está a mesa, mas o Peru tem feito sua lição de casa perfeitamente e por isso mesmo anda tão em voga. A Dinamarca que muitos de nós desconhece qualquer fato além de que faz um frio danado fez a sua parte e anda na lista de melhores dos melhores da gastronomia.

É importante revisitar o passado, reencontrar a simplicidade, mas também não queremos abrir mão do cosmopolitismo. A cozinha é um fenômeno universal e não há fronteiras para a sua influência. Queremos nossa identidade, mas queremos ser o homem que acessa e desfruta de muitas culturas.

Afinal, o que seria da Europa sem o tomate das Américas? Ou sem a batata, o milho e o feijão? Mas o que seria das Américas sem os animais domesticados para abate, sem a cana de açúcar, o café, o cacau?

Nunca diversidade e unidade de culturas estiveram tão próximas.

Com vários mundos às mãos, bom apetite!

 

 

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