Mês: Fevereiro 2012

Eu chorei…

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Eu chorei três vezes na minha vida: quando minha primeira ópera fracassou, quando ouvi Paganini tocar violino e quando um peru Souvaroff caiu na água em um piquenique em um barco.

A frase acima é do compositor italiano Rossini, aquele de Barbeiro de Sevilha, sabe? Se não, te ajudo com o vídeo abaixo. Não gosta de música clássica erudita? Devia aprender a gostar, vai por mim.

Esta citação está no livro “O ganso marisco e outros papos de cozinha” do Breno Lerner. O autor, com sua deliciosa prosa didática e conhecimento histórico, conta que as receitas Souvaroff se resumem a aves assadas recheadas com trufas.

E aqui cheguei no que eu queria. Pois bem, eu provavelmente já chorei mais de três mil vezes na minha vida – não que eu esteja contando, mas sou chorona mesmo, ou melhor, sensível, para parecer menos dramático -, e o fato é que ao ler aquela frase lembrei que também chorei ao comer trufas. A branca, de Alba, no restaurante Per Se de Nova Iorque.

Calma, não chorei no meio do restaurante contribuindo com o estereótipo de “caipiras deslumbrados” (que torram bastante dinheiro) dos brasileiros que visitam a Big Apple.

Contive a emoção, fiz até algumas piadinhas a respeito com o garçom (OK, piadas em línguas e países estrangeiros nem sempre funcionam e eu continuo tentando bancar a engraçadinha), caminhei mais de 10 quadras de volta ao micro estúdio em downtown até as primeiras lágrimas vencerem o vento gelado de outono.

Talvez não tenha sido culpa tão somente das deliciosas trufas. Era o conjunto da obra: o restaurante e a difícil reserva, a pompa, a vista do Central Park, a constatação de um (ou vários) sonhos realizados depois de dois meses viajando, mas talvez o principal tenha sido perceber o cuidado, o respeito mesmo do maitre ao manusear e discorrer sobre a iguaria.

Me emociona lidar com pessoas que são efetivamente apaixonadas pelo seus trabalhos. E foi isso que eu presenciei: a paixão contagiante.

Alguém que realmente dividia comigo uma emoção, que sabia que uma trufa vinda de Alba, no Piemonte, caçada por porcas (sim, o gênero feminino do animal, com aproximadamente 3-4 meses de idade) entre “carvalhos, nogueiras e álamos” ia fazer uma grande diferença naquele prato que me era servido. Alguém que sabia que eu valorizava cada detalhe daquele momento tal como ele cuidadosamente treinou sua brigada a valorizar e super atender a excelência desses detalhes.

Paro por aqui para não chorar de novo. Vou logo às fotos, não só das trufas do Per Se, mas de algumas outras que comi na mesma viagem.

Aliás, é bom lembrar que conheço muitas pessoas que não gostam de trufas e claro, entendo-as. O aroma pungente e não familiar ao paladar brasileiro pode afugentar alguns.

Isso para não falar dos excessos da indústria ao querer trufar azeites e tirar a essência do que representa uma iguaria. Trufa não é pra comer todo dia, meus caros capitalistas. E apreciá-las não é sinônimo de erudição ou status social. Apreciei o que você pode, o que te toca e o que ama, só assim você vai emocionar um estrangeiro como aquele apaixonado maitre do Per Se.

De azeites aromatizados, às lascas…

Galeria de Imagens: restaurantes A Voce, Aureole, Bouley, Casa Mono, Craft, Eleven Madison Park, Per Se, SD26, Tocqueville.

Pois é Rossini, você tinha razão. Pena que não dá para voltar no tempo e ouvir Paganini tocar violino, por isso eu fico com as trufas e os vídeos do Jascha Heifetz (sente o drama!).

Sentando à mesa entre o branco e o off-white

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Mais uma definição para o nosso MIMO. O modelo das mesas!

Após muitas visitas a fábricas e showrooms; muita negociação e discussão do melhor material para a finalidade; dois protótipos mais tarde; cheguei no que sonhava.

Vou explicar o porquê este item demandou mais energia do que se imagina necessário.

Fato é que existem muitas boas fábricas de móveis por aí, muitas opções para restaurantes também, preços e modelos para os diversos públicos, mas eu não facilitei. Parti de um princípio que complicava um pouco e restringia as opções. Minhas mesas deviam ser brancas, branquinhas mesmo, ou no máximo off-white (seu pantone contempla essa cor?).

E aí? As 98% de opções em madeira estão fora ou vamos pintar a madeira? Pintar como?

Uma pintura mais comum poderia deixar rústico o móvel, pátina estava fora de cogitação, pintura epóxi não funcionou… Laca? Lindo! Adoro! Mas minha casa tem muitos móveis assim e sei que depois de um tempo temos lascas na laca porque laca lasca.

Bom vamos revestir então. OK, MDF + formica. Existem muitos tipos hoje em dia, mas não me convenci (ou seria melhor dizer não me apaixonei?), tudo me fazia lembrar mesa de lanchonete.

Pedras? Mármore, Marmoglass, Silestone e afins. Lindos e caros. Graças a Deus (para quem acredita) e à ciência (para quem duvida) caro não é o único problema, a questão incômoda é o toque gelado. Não traz conforto, né? Me lembra de novo fast food, ou cafés.

Soluções modernas como o corian? Hum, por que não? E vamos ao primeiro protótipo (a mesa fosca das fotos abaixo). Gostei da aparência. Derramei vinho e tive que sair correndo para limpar, o troço chupa e mancha que é uma beleza. E não é só. O toque ainda é gelado – não tanto quanto o das pedras, mas ainda não confortável o suficiente.

Resina de poliéster. OK, depois de uma explicação quase científica do produto mandei fazer mais um protótipo que, pasmem, ficou com a mesma aparência de meus móveis de laca. Amei, ponto final. Ou quase. O custo não é tão convidativo, mas vamos lá, agora é só por as técnicas de negociação pra funcionar, não?

E o brilho? Vê nas fotos abaixo? Ah! Tem mais. Juro que vocês vão poder derrubar vinho sem qualquer remorso.

 


Santa Clara clareou, ou não.

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Foi só eu começar a escrever este post e a chuva chegou.

São Paulo, minha querida São Paulo, não anda colaborando com minha alegria.

Quando temos o único material da obra que chega no prazo prometido e a equipe a trabalhar na hora combinada, tudo o que poderia atrapalhar era a chuva a impedir o serviço de impermeabilização. Mas não. Não dessa vez.

A manhã estava nublada, não o suficiente para impedir o Sol de se impor. E vejam aí o resultado.

Se deu tempo de terminar tudo? Ah vá!

Bom, qual é mesmo a simpatia para a Santa Clara?

Havaí, porque não?

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Se falei da fascinante Ásia não me contive em deixar de lado o “paradisíaco” Havaí que não pertencendo tecnicamente à Ásia está ali bem pertinho e por isso mesmo possui maioria de habitantes “asiáticos-americanos” (fácil de perceber a “vizinhança” no globo, um pouco mais difícil no mapa-múndi, mas você, meu leitor, já passou da quarta série, não?).

E a citação ao Havaí está neste blog tão perdida quanto as ilhas dos demais Estados Norte-Americanos.

Também nunca visitei. Também não me atrevo falar da culinária que parece ser obviamente baseada em peixes e frutos do mar, das espécimes habitantes do Oceano Pacífico cujas preciosidades só conheci as da sulina costa chilena.

Mas o George Clooney merece uma citação vá. As indicações que o filme Os Descendentes recebeu ao Oscar/2012 também (até porque escrevo isso alguns dias antes da premiação).

O filme, dado todo o meu preconceito inicial, me cativou. Não é uma obra-prima, mas é delicado e sensível, tal como foi meu Carnaval. E sim, uma das cenas que mais gosto se passa em um restaurante, porque não?

A fascinante Ásia

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Este não é um post sobre comida asiática. Até porque como poderia eu, em um único post, agrupar tantas culturas culinárias quantas cabem no maior e mais populoso continente desse nosso planeta?

Isso sem falar que minhas poucas incursões pelos bairros paulistanos da Liberdade e do Bom Retiro, nenhum carimbo no passaporte para além do leste europeu, e poucas leituras/estudos sobre o fascinante continente, me credenciam a tratar do assunto.

Por mais que odeie rankings e essa necessidade de premiar, “estrelar” e qualificar, posso até contar para os mais afoitos quais são meus japoneses, chineses, coreanos, etecétera preferidos… avisando que nem para isso sou confiável pois muitos dos clássicos e/ou populares paulistanos não foram por mim visitados (mas antes que insistam a listinha está abaixo).

Isso quer dizer então que este post foi feito única e exclusivamente para fazê-los admirar.

Se hoje tudo o que ouvi é que o ano finalmente começou pois o carnaval acabou, começo eu com a “primeira de todas as paixões” (Descartes, René): a admiração.

Nas minhas buscas por culinária e fotografia tive o prazer de me deparar com o site do fotógrafo americano David Hagerman, e mais não pude pensar senão parar para admirar as imagens da Ásia (acessem o link aqui).

E cheguei nesse link por outro site incrível de se admirar, o Eating Asia, no qual me perco horas entre os chás da Anatólia (porção asiática da Turquia) e os cafés da manhã da Malásia – claro porque Ásia não é só “Bairros da Liberdade”, não?

Aliás, dou outra dica!

Quando quero saber alguma coisa da culinária japonesa inicio sempre minhas buscas pelo blog da admirável Marisa Ono. Vá lá você também, clicando aqui.

OK, antes que me cobrem, a listinha:

Japoneses: Hideki e Jun Sakamoto, ambos em Pinheiros; Sushi Isao na Liberdade e Shintori, no Jardim Paulista (olha só… pertinho do MIMO).

Chineses: Shifu e Rong He na Liberdade e Ton Hoi no Butantã.

Coreano: Só conheço um, vale? Restaurante Ueda, na Rua da Glória. Serve Iakinuku (tipo de um churrasco na grelha). E agora!?! Isso é comida japonesa de origem coreana ou coreana mesmo? Não sei…

Árabes: Miski, no Jardim Paulista (Ah! Esse sim vizinho do MIMO), Gebran e Raful, ambos próximos à 25 de março.

Turcos: eu até devia dizer que fico devendo uma dica por desconhecimento total da causa, mas como adoro o Pita Kebab, em Pinheiros, e se minha cultura geral não me trair sobre a origem do kebab, arrisco a citar esse pequeno bar/restaurante aqui.

Tailandeses: Humm, sinceramente? Nenhum. Não consigo entender o porquê de São Paulo não ter um tailandês bem decente, ou pelo menos porque ninguém me apresentou um até hoje. Eu gosto do Marakuthai, se alguém pensou nele, mas não o classifico como tailandês OK? Nem aqui, nem na Ilhabela.

Indianos e demais também não conheço, mas aceito todas as sugestões que vocês quiserem me dar. Pensei até em citar o marroquino Tanger, mas além de o Marrocos não ser na Ásia e sim na África (quase cometi a gafe…) não o visitei desde que mudou de endereço na Vila Madalena e minha impressão até então era de irregular.

Pauta óbvia: Carnaval

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Pois é o Carnaval mais uma vez chegou e se é pra variar eu vou ficar em São Paulo coisa que não fiz nos últimos 20 anos da minha vida. E estou animada! Eu não sou fã número um de Carnaval, já passei em locais tão improváveis como o Uruguai (bem longe de Punta del Este, bebê) ou uma ilha quase desconhecida no Caribe.

Se bem que se for para falar de gostos, fato é que priorizo a companhia de amigos animados ao local da folia. Em outros anos me deixei levar por eles ouvindo incessante e irritantemente sambas enredo.

Até porque prefiro conhecer os eventos de massa antes de criticá-los e mesmo sem samba no pé não posso negar que: já fui uma vez a Salvador (sem nenhuma intenção de voltar), já fui à Olinda (amor e ódio juntos), já desfilei em escola de samba no Rio de Janeiro (muita curtição – Rodrigo Santoro que o diga, ui!) e já fui em “quase” todos os blocos de rua de carnaval do Rio (tenso conseguir ir ao banheiro, passo galera). Como boa estudante da FGV/SP já fui à Vai-Vai, com direito a ensaio e comemoração do campeonato. E por ora deu.

Não tenho nada planejado para este feriado. Nada mesmo, o que é um problema porque posso começar a trabalhar ao invés de descansar, mas se for para trabalhar que tal focar num tema que combina com o Carnaval, como o de testar drinks. Ah! Claro! Como não tinha pensado nisso antes?

Pra começar podia aprender a fazer um Bloody Mary, coisa que amo mas nunca me arrisquei a fazer (aliás, pra quem tem viagem marcada para Londres, o melhor que tomei lá foi no gastropub Great Queen, do qual já falei aqui).

Podia tentar mais versões de Mimosa. OK, já fiz uma meia dúzia como contei aqui, mas recentemente comprei as taças em que serão servidos o drink, então não custa me aprimorar na apresentação, certo?

Como estou numa fase mais light (também depois de passar 10 dias no Chile a base de vinho vocês queriam o que?) quero testar uns smoothies alcóolicos. Que tal iogurte com suco de maçã, pitanga e vodca? Também sou fascinada por pepino em bebidas, algo que pode soar estranho mas é tão, tão refrescante que vale a tentativa… Pepino, limão, folhas de hortelã , muito gelo e vodca também vai cair bem, não? E a lichia? Humm preciso pensar outro drink… mas pra mim ela é inseparável de um bom espumante…

Acho que este vai ser o Carnaval do ENGOV!

Muita folia (ou descanso) a todos!

“… como uma infância”

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Embalada pela música do Beirut, “Postcards from Italy”, que inseri o link no post anterior, subi correndo as escadas atrás de um livro (dessa vez eu li) que me fez criar algumas boas lembranças daquilo que não vivi e de um lugar que ainda, repito, AINDA, não visitei.

Livros têm este poder, ou melhor esta magia! Assim como a comida, não?

E mais não vou falar, vou transcrever. E se você puder ler comendo um pecorino sardo* e “sardine al pomodoro” vai chorar ao final:

*aliás se alguém souber onde eu encontro, se é que é possível, me diz por favor!!!

Eu sei o que é ser feliz na vida – e a dávida da existência, o gosto da hora que passa e das coisas que estão em torno, ainda que imóveis, a dádiva de amá-las, as coisas, fumando, e uma mulher dentro delas. Conheço a alegria de uma tarde de verão, lendo um livro de aventuras canibalescas, seminu em uma chaise longue, na frente de uma casa de colina com vista para o mar. E muitas outras alegrias juntas: de estar num jardim à espreita e escutar o vento que mal move as folhas (as mais altas) de uma árvore; ou sentir trincar e desmoronar num areal a infinita existência de areia; ou, num mundo povoado de galos, despertar antes da alvorada e nadar sozinho em toda a água do mundo, à beira de uma praia rosada. (…)

(…) A alta costa foi escalada, e aqui, diante dessas orlas tão baixas, parece que já estamos no coração do altiplano. Principalmente se nos damos conta de que essa terra rosada das colinas é toda de rocha. Diria que se trata de um lago vulcânico. E na água afloram cardumes de um brilhante candor. Longos gemidos rompem o ar frio como as fraturas do próprio ar; pássaros brancos erguem voo e tornam a mergulhar, agitando as asas com deselegância: albatrozes, gaivotas…

Para continuar a leitura vá lá: “Sardenha como uma infância” de Elio Vittorini, Editora Cosac Naif.