Shokunin

Publicado em Atualizado em

Comecei a semana inspirada por um pequeno artigo da New Yorker sobre o “sushi chef” Jiro Ono e o documentário “Jiro Dreams of Sushi”. Vale a pena ler a íntegra do artigo aqui.

Na verdade é um misto de inspiração e incômodo. Sabe quando você lê uma história de vida e querendo se justificar do porquê não ter a mesma genialidade, perseverança e força de vontade, cria todo um rol de argumentos factíveis que o colocam como vítima do sistema? Pois é. Vou explicar.

Jiro Ono possui um pequeno restaurante onde serve sushis em Tokyo. Segundo a New Yorker cobra algo como U$370,00 por uma refeição que dura uns 20 minutos. É fácil conseguir uma reserva lá? Claro que não. Você vai esperar alguns meses e usar algum tráfego de influência OK?

Possui três estrelas Michelin, um belo faturamento garantido pelas reservas antecipadas e uma história de vida impressionante que mais só vou saber quando conseguir ver o documentário (isso se vier parar no Brasil).

Pensa num japonês que não só respira, mas vive e exemplifica a cultura da constante busca da perfeição pela lenta, concentrada e analítica repetição incansável dos movimentos do artesanato. Como dito na New Yorker: kaizen*!

Pensa num Chef de cozinha que pode se dar o luxo de massagear um polvo por 40 minutos antes de servi-lo. Pode se dar o luxo de sempre comprar o melhor do melhor dos melhores ingredientes para servir. Que pode exigir fidelidade e respeito de toda a cadeia de fornecedores não aceitando quem não compartilhe com ele essa cultura da busca incessante pela perfeição.

Sentiu o recalque no “pode se dar o luxo’?

Diria eu: porque quem “pode se dar o luxo” senão aquele que tem 3 estrelas Michelin e um gordo faturamento garantido?

Peraí, mas a questão é: esse é o resultado visível e atual do trabalho, da perseverança, da ética e da filosofia de uma vida inteira, não?

Aí começo a me questionar. Sim, porque é claro que me inspiro com essas histórias. É claro que busco a perfeição para o MIMO que é hoje o meu projeto de vida. Mas não posso dizer que tenho sucesso em aplicar ou exigir diariamente perfeição em todos os detalhes do processo de meu trabalho.

Sou vencida porque tenho pressa. Fui vencida muitas vezes na obra do restaurante. Quis o melhor, busquei o melhor, planejei o melhor, mas longe estou de construir algo que beire a perfeição. As justificativas são diversas e é fácil achar quem vá passar a mão na minha cabeça e me confortar porque tocar uma obra no Brasil, abrir um negócio seguindo a burocracia brasileira, é coisa de maluco.

Mas quem disse que a vida do Jiro Ono também foi fácil?

Pois é. Perseverança. O que muitos de nós precisamos é mais concentração, mais ação e menos falação. Precisamos parar de admirar e sonhar para trabalhar e, sim, lograr e vencer. Precisamos não aceitar, mesmo que a agenda e os recursos sejam curtos e exijam rapidez de soluções.

Escolher e seguir um caminho que seja tão perfeito que te ilumine. Saber que a arte está na busca, entender que a perfeição é inatingível mas o processo é que nos eleva.

E ver o trailer desse filme me lembrou um pequeno livro chamado “A arte cavalheiresca do arqueiro zen” de Eugen Herrigel. Vá lá. Tem o livro em PDF na internet.

Sonhando…

*Kaizen (do japonês 改 善, mudança para melhor) é uma palavra de origem japonesa com o significado de melhoria contínua, gradual, na vida em geral (pessoal, familiar, social e no trabalho). Pode ser visto como um processo diário, cujo propósito vai além de aumento da produtividade. Quando corretamentamente executado, é também um processo que humaniza o ambiente de trabalho, elimina o trabalho duro, ensina as pessoas como realizar experimentos no seu trabalho usando o método científico e também como identificar e eliminar desperdícios nos negócios. Em geral, o processo sugere uma relação humanizada com os trabalhadores e com aumento de produção. (Wikipédia)

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Uma opinião sobre “Shokunin

    Atendendo a pedidos « MIMO Restaurante disse:
    31/08/2012 às 9:04 PM

    […] Shokunin […]

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