Gênios ou heróis?

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Quem um dia não se decepcionou com o dia-a-dia de sua profissão? O trabalho, o cumprimento de metas estão muito mais ligados a uma infinidade de tarefas repetitivas que requerem mais de nossa atenção do que do intelecto criativo.

Nosso campo de ideias é fértil e inesgotável, mas nossa capacidade de ação nem sempre se nutre da mesma motivação.

Eu não sei de onde vem essa cultura de se prestigiar tanto mais os idealizadores em detrimento dos realizadores, até porque em nossa infância sonhamos em ser heróis, quase nunca gênios (pelo menos na minha geração e outras antecessoras).

É fácil se frustrar quando romanceamos nossa profissão e valorizamos o objetivo a ser alcançado sem reconhecer a beleza do heroico esforço necessário ao processo de lá nos levar.

Da ideia concebida até o alcance bem-sucedido do objetivo proposto existe um penoso caminho de pequenas realizações que dependem do trabalho diário (massante, chato, penoso…) e da coordenação do trabalho (massante, chato, penoso…) de várias outras pessoas que não dividem consigo a mesma visão romântica de sua ideia.

É claro que sem grandes ideias não existem grandes realizações, mas são lados de uma mesma moeda e tal qual deveriam ser respeitados.

E porque estou falando tudo isso? Dois são os motivos.

Porque esta inquietação é o que me levou a aceitar o desafio de me tornar uma empreendedora. Como advogada, passei a maior parte da minha vida profissional sendo consultora e ditando o certo e o errado, auditando a ação de terceiros, indicando caminhos e metas, mas (quase) nunca tendo que implantar e perpetuar as ações ditas corretas.

Segundo, porque na obra do restaurante presencio, muito mais do que em todos os outros capítulos de minha vida profissional, um efetivo prejuízo pela exagerada valorização das ideias e seus idealizadores.

As ideias são tão valorizadas que ninguém olha com a devida atenção para as diversas ações necessárias à sua concretização. E a discrepância entre a mão de obra idealizadora e a realizadora é tão grande que fica até compreensível o fracasso da construção civil brasileira.

OK, ninguém sonha em ser pedreiro, em carregar sacos de cimento, mas alguém poderia sonhar em implantar a melhor ação para esse saco de cimento cumprir a sua função de forma limpa, organizada e ágil, não?

Os arquitetos pensam artisticamente, os engenheiros normativa e estruturalmente, e quem concilia ideias, analisa minuciosamente as diversas implicações práticas de cada vetor posto no projeto? Quem, com cuidado, mede o terreno para ver se o desenho feito lá cabe? Quem olha cada ponto, cada bloco, cada fio? No escritório, o estagiário. Na obra, o pedreiro. Nada contra os dois, mas se estes são os heróis cadê os geniais graduados a lhes orientar e supervisionar? Muito atarefados com suas ideias, não?

E assim se perpetua o abismo entre o criar, o pensar; o realizar, o fazer.

Ah! E me desculpem a licença poética para a utilização do termo gênio, já que gênio, gênio mesmo, aquele “hors-concours”, não só projeta, faz. Mas quantos Michelangelos existiam, existem e existirão no mundo, capazes de não só projetar o teto da Capela Sistina como de executar todos os seus afrescos dispensando qualquer ajudante?

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