Mês: Abril 2012

Refúgio

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Na minha infância comer era um martírio. Muitas atividades eu me impunha para postergar os momentos à mesa do almoço e do jantar. Uma delas sempre foi a leitura. Quando a mesa estava posta faltavam, irremediavelmente, algumas páginas para eu terminar aquele capítulo e, Poxa Mãe… não posso interromper meu raciocínio antes da permissão do autor do livro, né? (quase sempre funcionava).

E se os livros eram meu refúgio não sei em qual momento da minha vida a comida também se tornou. Se não exatamente a comida, o ritual em torno dela: a preparação, na cozinha, ou ainda os preparativos para a escolha de um restaurante e todo o ritual envolvendo o ato de comer nesses estabelecimentos.

Tem quem não entre num restaurante sozinho. Não consegue se imaginar numa refeição sem companhia. Eu adoro. Aguça meu sentido de observação e raramente me enfadonho (para as ocasiões sabidas de antemão que a refeição será longa, levo um livro, porque não?).

Desde que resolvi montar o MIMO ir almoçar e jantar em restaurantes tornou-se um vício que oscila entre o refúgio contemplativo e o prazeroso trabalho de benchmarking.

Mas devo confessar que quanto mais a obra demora (pasmem, o novo cronograma mostra a entrega da obra daqui a mais dois meses) mais cresce em mim um sentimento de estranheza, um questionamento de qual seria o meu lugar, qual seria o meu refúgio.

Chego à conclusão que o caminho tanto mais longo é quanto são as provações e o treinamento que a vida precisa lhe impor. E sigo em frente. Sigo não sem garantir um livro dentro de minha bolsa onde possa me refugiar tomando um café e comendo… comendo o que? O que me conforte naquele exato momento.

De mil experiências que fazemos, no máximo conseguimos traduzir uma em palavras, e mesmo assim de forma fortuita e sem o merecido cuidado. Entre todas as experiências mudas, permanecem ocultas aquelas que, imperceptivelmente, dão às nossas vidas a sua forma, o seu colorido e sua melodia. Quando depois, tal arqueólogos da alma, nós voltamos para esses tesouros, descobrimos o quão desconcertantes eles são. O objeto da observação se recusa a ficar imóvel, as palavras deslizam para fora da vivência e o que resta no papel no final não passa de um monte de contradições. Durante muito tempo acreditei que isso era um defeito, algo que deve ser vencido. Hoje penso que é diferente, e que o reconhecimento de tamanho desconcerto é a via régia para compreender essas experiências ao mesmo tempo conhecidas e enigmáticas. Tudo isso parece estranho, eu sei, até mesmo extravagante. Mas desde que passei a ver as coisas assim, tenho a sensação de, pela primeira vez, estar atento e lúcido.

Vá lá: MERCIER, Pascal. “Trem noturno para Lisboa”. Editora Record.