Astrid & Gaston – Lima Peru

Astrid & Gastón – en otro sitio

Publicado em Atualizado em

O post que foi mais lido até hoje neste blog não foi escrito por mim. Muitas vezes este fato me tornou motivo de chacota por parte do amigo autor do relato mais acessado, até que, dia desses, vingança!, o recorde de visitas foi batido.

Mas eis que o recorde foi para a página institucional, o que, se for para fazer justiça, não tirou o troféu desse amigo. Pronto! No mínimo mais uma meia dúzia de piadas vou ouvir; o que, confesso, adoro.

E se fiz essa introdução toda é só para contar que o tal post popular conta a ida desse amigo ao Astrid & Gastón de Lima. E já que eu estive no começo do ano em Santiago, acabei jantando na filial chilena do grande Chef Peruano, contrariando minha meta de conhecer primeiro as casas originais, pela mesma influência daquele relato. OK, somada à influência do livro que tenho do Gastón Acurio e das diversas provocações incitadas via sua página do Facebook.

Mas isso não é pouco, uma vez que este mesmo Chef responde pelo restaurante La Mar e suas inúmeras filiais dentre as quais aquela ali do Itaim-Bibi. Sim, assim perto, sem necessidade (ao menos para mim) de qualquer condução aérea. E à qual eu resistia ir pensando em minha futura viagem a Lima.

Muito se debate sobre os tais Chefs que, apoiados em sua fama (isso não é uma crítica, 99% dos casos ela é justíssima), abrem inúmeras filiais de seus restaurantes mundo afora. Será que a comida feita a muitos milhares de distância do seu mentor mantém a qualidade necessária? É possível manter a qualidade quando esta depende em muito da matéria prima utilizada que, por ser um produto da terra, vai variar de país para país, até mesmo de cidade a cidade? E mais, não seria uma cozinha de autor, dizem alguns…

Ora, eu não sou contra o progresso, a globalização e nem mesmo contra pessoas talentosas que conseguem manter empreendimentos de sucesso mundo afora. Não acho que a única comida boa é aquela “de autor”. Não sou contra pessoas se tornando selo de qualidade de produtos que não vêem serem produzidos. Não acredito que um ofício como a culinária, cuja base é o artesanato, não possa ser ensinado e aperfeiçoado pelos aprendizes pela repetição dos atos.

Mas há sim um limite arriscado a não ser ultrapassado, principalmente pelo fato do capitalismo brutal exagerar no uso da mídia para tentar salvaguardar projetos com pouca consistência.

Um bom livro sobre o tema é o “Para onde foram os Chefs? Fim de uma gastronomia francesa” do François Simon. Outro que toca no assunto seguindo a mesma seara de criticar o declínio da gastronomia francesa é “Au Revoir to all that: Food, Wine, and the End of France”, do Michael Steinberger (não sei se foi publicado em terras tupiniquins). Ambos valem a leitura e a reflexão.

Pois bem. Debates de lado, acho que o Gastón Acurio faz um bom trabalho a distância sim, pois a minha visita à filial chilena não me decepcionou. Deve ser um grande gerenciador de pessoas, além de grande cozinheiro.

Pedi o menu degustação. Minha crítica? Achei o menu tímido. Se eu comparar com o que o meu amigo se deliciou em Lima, acredito que o filhote chileno era mais contido. E talvez aí esteja o pulo do gato. A ousadia só vale a pena quando a consistência de sua equipe e a matéria prima recebida pode garantir a mesma qualidade. Caso contrário, mantenha-se naquilo que já foi testado muitas vezes e sabe que não vão errar em seu nome. Ponto para eles.

Outra crítica? Essa não é justa pois não acho que seja o foco deles, além de entrar em jogo uma predileção minha, mas a apresentação dos pratos deixou a desejar. Sabor impecável sim. Por isso mesmo que acredito que merecia maior capricho com os detalhes de visual. Bom, julguem vocês pelas fotos.

Minha conclusão? Vou no La Mar aqui de São Paulo amanhã! Alguém me acompanha?



O primeiro menu degustação a gente nunca esquece

Publicado em Atualizado em

Eu lancei uma ideia para alguns amigos de escrevem um post para ser publicado aqui em que contassem um almoço ou jantar inesquecível. Não necessariamente o melhor de suas vidas, afinal criar um ranking de refeições é difícil senão impossível. Não só pela quantidade de variáveis que influenciam, mas principalmente pela diversidade de tipos de comidas e serviço. Se fosse para dizer o que é melhor, teríamos que criar classificações para comparar coisas semelhantes, o que não é o caso, né?

Então o motivo de ser inesquecível fica a cargo do narrador. Talvez o primeiro post com essa temática devia ser o meu, mas um amigo se superou e já me mandou um email com seu relato. Aliás já faz uns dias que este relato está em meu computador, mas as fotos só chegaram hoje, o que vai criar uma semelhança não planejada com o Caderno Paladar do jornal Estado de São Paulo de hoje…

————————————————————————–

Meu almoço inesquecível, por Tiago Garcia Clemente.

Nunca compreendi muito bem esta questão de gourmet. Para falar verdade sempre achei uma frescurada! Aquela porção ridícula no prato e a conta no final nada ridícula.

Para mim prato bom é prato cheio! Cheio de carne ou massa, batatas ou, por que não,  feijoada. Isso sim é uma refeição digna! Tanto que gosto de comer em boteco  que serve prato farto que satisfaz!

Recentemente estava fazendo uma viagem pelo Peru (brincadeiras a parte), e ao visitar Lima e caminhar pelas redondezas do bairro de Miraflores (equivalente ao bairro Jardins de São Paulo… será?) dei de cara com o Restaurante Astrid & Gastón na Calle Cantuarias. Já tinha ouvido falar deste restaurante por meio de reportagens em jornais e revistas; já tinha lido um ou outro comentário a respeito do Chef Gastón Acuria que se transformou em uma celebridade mundial (aliás haja Chef celebridade mundial hoje em dia, não?).

Ao olhar o relógio percebi que já era hora do almoço, mais precisamente, 12:10 pm e o restaurante estava fechado. Mas ao perguntar a alguns funcionários que por ali estavam, fui informado que o restaurante abriria às 12:30 e resolvi esperar.

Em questões de minutos eu não era mais o único a esperar. Uma fila de estrangeiros se formava; gringos ávidos para conhecer a comida do Chef Peruano. Pontualmente às 12:30 as portas do restaurante se abriram e a recepcionista logo me indagou se eu havia feito reserva. Diante de minha resposta negativa ela me informou que eu não sentaria no salão principal mas que poderia almoçar em uma das mesas do bar e que ali era servido o menu completo.

Logo que me acomodei o garçom veio apresentar o menu da casa e ofereceu a opção do “menu degustação” que era composto de 12 pratos dos quais dois eram sobremesa. Me informou ainda que a refeição toda duraria aproximadamente 3 horas e custaria $ 170 nuevos soles. Pensei comigo: Que pretensioso este menu, que puta frescura, vou comer estes 12 pratos em uma hora e meia e pronto!  Tomei aquilo como desafio.

A fome já arranhava as paredes do meu estômago então seria um desafio fácil. Bem, chegou o primeiro prato “Cebiche del amor”, não preciso dizer que era uma porção ridícula que foi devorada em questão de segundos. Ao terminar olhei para o garçom com sorriso sarcástico e desafiador como se os pratos seguintes fossem iguais ao primeiro e que eu realmente terminaria tudo em uma hora e bateria o recorde da competição criada pela minha cabeça.

O segundo prato chegou e o garçom resolveu explicá-lo e eu resolvi acompanhar a explicação sem qualquer interesse. Para mim eu estava ali estava como Don Quixote, brigando com meu inimigo imaginário. Mal o garçom terminou a explicação eu já tinha acabado o segundo prato. E olhava para ele com um ar de “é só isso que este restaurante tem para me mostrar?”

Passado alguns minutos veio o terceiro prato e novamente o funcionário tornou a explicá-lo e o meu ato se repetiu. Ao terminá-lo meu pensamento era o mesmo “puta frescura, nem sinto o gosto de tão pouca comida que vem em cada prato”.

O quarto demorou para aparecer (talvez o garçom propositalmente resolveu também me desafiar) e para passar o tempo comecei a ler o menu com a devida atenção. E não só. Passei a prestar atenção nas mesas em volta de mim e pude perceber que estava agindo como um ogro e tolo. Enquanto todos saboreavam os seus pratos e faziam os seus devidos comentários e os havia engolido e nem tinha percebido o que tinha mastigado, se é que tinha mastigado. Ou seja, o meu comportamento era completamente inadequado considerado o tratamento que cada prato provavelmente recebia na cozinha ao ser minuciosamente preparado.

Veio o quarto prato e desta vez pelo menos eu prestei  atenção na explicação e consegui me libertar da ridícula competição interna. Aprecei cada garfada e colherada na comida, procurei sentir cada ingrediente e entender o conjunto de sabores apresentados.

E assim foi sucessivamente nos demais pratos da degustação, até o último que era uma sobremesa, a “Esfera de chocolate” simplesmente deliciosa. A minha opinião não era isolada, pois na mesa ao lado um casal inglês sentiu orgasmos ao comê-la (ou melhor, degustá-la). Eu arrisco em dizer que foi a primeira vez que aquele casal alcançou o orgasmo juntos.

Ao final eu estava completamente satisfeito, tanto pela fome saciada, como por ter me emocionado com uma refeição e, principalmente por ter conseguido perceber que comi ingredientes muito bem preparados, simples e diferentes.

E a minha  felicidade foi completa, pois terminei o menu degustação, inclusive tirando fotos, em 2horas e 48 minutos… Chupa, venci!