Livros e filmes recomendados

The book is on the table

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Faz um bom tempo que não sento pra ler um livro. Sou assim. Tem épocas que devoro uns três concomitantemente, depois fico uns meses sem ler usando meu tempo livre para outras atividades que eu também adoro como ver filmes: velhos, novos, lançamentos…

Mas eis que resolvi dar uma ajeitada na biblioteca de casa e trouxe uns livros pro MIMO que gosto de consultar. Como o espaço aqui é pequeno, a biblioteca também o será, ou melhor, terá seu acervo rotativo.

O que eu trouxe?

Brasil a Gosto, da Ana Luiza Trajano;

Roger Vergés’s New Entretaining in the French Style, pelo próprio Vergé;

Nobu, The Cookbook;

Del Anticucho y de las entradas calientes, de Gastón Acurio;

Ingredientes, de Louke Werle e Jill Cox;

Receitas Especiais sem Glúten, sem Trigo, ou sem Laticínios, de Grace Cheetan.

Recomendo todos eles. Em especial o Brasil a Gosto que não só me faz recordar os deliciosos almoços que já fiz nesse restaurante como também nutre minha eterna inquietação de viajar pelo Brasil. As fotos são divinas, o trabalho de pesquisa emociona. Não é um livro de receitas, é bom avisar. Não é um livro de grandes prosas. É um livro visual, uma provocação dos sentidos. São pitadas do nosso enorme Brasil com toda poesia que uma bela fotografia pode revelar.



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Refúgio

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Na minha infância comer era um martírio. Muitas atividades eu me impunha para postergar os momentos à mesa do almoço e do jantar. Uma delas sempre foi a leitura. Quando a mesa estava posta faltavam, irremediavelmente, algumas páginas para eu terminar aquele capítulo e, Poxa Mãe… não posso interromper meu raciocínio antes da permissão do autor do livro, né? (quase sempre funcionava).

E se os livros eram meu refúgio não sei em qual momento da minha vida a comida também se tornou. Se não exatamente a comida, o ritual em torno dela: a preparação, na cozinha, ou ainda os preparativos para a escolha de um restaurante e todo o ritual envolvendo o ato de comer nesses estabelecimentos.

Tem quem não entre num restaurante sozinho. Não consegue se imaginar numa refeição sem companhia. Eu adoro. Aguça meu sentido de observação e raramente me enfadonho (para as ocasiões sabidas de antemão que a refeição será longa, levo um livro, porque não?).

Desde que resolvi montar o MIMO ir almoçar e jantar em restaurantes tornou-se um vício que oscila entre o refúgio contemplativo e o prazeroso trabalho de benchmarking.

Mas devo confessar que quanto mais a obra demora (pasmem, o novo cronograma mostra a entrega da obra daqui a mais dois meses) mais cresce em mim um sentimento de estranheza, um questionamento de qual seria o meu lugar, qual seria o meu refúgio.

Chego à conclusão que o caminho tanto mais longo é quanto são as provações e o treinamento que a vida precisa lhe impor. E sigo em frente. Sigo não sem garantir um livro dentro de minha bolsa onde possa me refugiar tomando um café e comendo… comendo o que? O que me conforte naquele exato momento.

De mil experiências que fazemos, no máximo conseguimos traduzir uma em palavras, e mesmo assim de forma fortuita e sem o merecido cuidado. Entre todas as experiências mudas, permanecem ocultas aquelas que, imperceptivelmente, dão às nossas vidas a sua forma, o seu colorido e sua melodia. Quando depois, tal arqueólogos da alma, nós voltamos para esses tesouros, descobrimos o quão desconcertantes eles são. O objeto da observação se recusa a ficar imóvel, as palavras deslizam para fora da vivência e o que resta no papel no final não passa de um monte de contradições. Durante muito tempo acreditei que isso era um defeito, algo que deve ser vencido. Hoje penso que é diferente, e que o reconhecimento de tamanho desconcerto é a via régia para compreender essas experiências ao mesmo tempo conhecidas e enigmáticas. Tudo isso parece estranho, eu sei, até mesmo extravagante. Mas desde que passei a ver as coisas assim, tenho a sensação de, pela primeira vez, estar atento e lúcido.

Vá lá: MERCIER, Pascal. “Trem noturno para Lisboa”. Editora Record.

 

 

 

Eu chorei…

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Eu chorei três vezes na minha vida: quando minha primeira ópera fracassou, quando ouvi Paganini tocar violino e quando um peru Souvaroff caiu na água em um piquenique em um barco.

A frase acima é do compositor italiano Rossini, aquele de Barbeiro de Sevilha, sabe? Se não, te ajudo com o vídeo abaixo. Não gosta de música clássica erudita? Devia aprender a gostar, vai por mim.

Esta citação está no livro “O ganso marisco e outros papos de cozinha” do Breno Lerner. O autor, com sua deliciosa prosa didática e conhecimento histórico, conta que as receitas Souvaroff se resumem a aves assadas recheadas com trufas.

E aqui cheguei no que eu queria. Pois bem, eu provavelmente já chorei mais de três mil vezes na minha vida – não que eu esteja contando, mas sou chorona mesmo, ou melhor, sensível, para parecer menos dramático -, e o fato é que ao ler aquela frase lembrei que também chorei ao comer trufas. A branca, de Alba, no restaurante Per Se de Nova Iorque.

Calma, não chorei no meio do restaurante contribuindo com o estereótipo de “caipiras deslumbrados” (que torram bastante dinheiro) dos brasileiros que visitam a Big Apple.

Contive a emoção, fiz até algumas piadinhas a respeito com o garçom (OK, piadas em línguas e países estrangeiros nem sempre funcionam e eu continuo tentando bancar a engraçadinha), caminhei mais de 10 quadras de volta ao micro estúdio em downtown até as primeiras lágrimas vencerem o vento gelado de outono.

Talvez não tenha sido culpa tão somente das deliciosas trufas. Era o conjunto da obra: o restaurante e a difícil reserva, a pompa, a vista do Central Park, a constatação de um (ou vários) sonhos realizados depois de dois meses viajando, mas talvez o principal tenha sido perceber o cuidado, o respeito mesmo do maitre ao manusear e discorrer sobre a iguaria.

Me emociona lidar com pessoas que são efetivamente apaixonadas pelo seus trabalhos. E foi isso que eu presenciei: a paixão contagiante.

Alguém que realmente dividia comigo uma emoção, que sabia que uma trufa vinda de Alba, no Piemonte, caçada por porcas (sim, o gênero feminino do animal, com aproximadamente 3-4 meses de idade) entre “carvalhos, nogueiras e álamos” ia fazer uma grande diferença naquele prato que me era servido. Alguém que sabia que eu valorizava cada detalhe daquele momento tal como ele cuidadosamente treinou sua brigada a valorizar e super atender a excelência desses detalhes.

Paro por aqui para não chorar de novo. Vou logo às fotos, não só das trufas do Per Se, mas de algumas outras que comi na mesma viagem.

Aliás, é bom lembrar que conheço muitas pessoas que não gostam de trufas e claro, entendo-as. O aroma pungente e não familiar ao paladar brasileiro pode afugentar alguns.

Isso para não falar dos excessos da indústria ao querer trufar azeites e tirar a essência do que representa uma iguaria. Trufa não é pra comer todo dia, meus caros capitalistas. E apreciá-las não é sinônimo de erudição ou status social. Apreciei o que você pode, o que te toca e o que ama, só assim você vai emocionar um estrangeiro como aquele apaixonado maitre do Per Se.

De azeites aromatizados, às lascas…

Galeria de Imagens: restaurantes A Voce, Aureole, Bouley, Casa Mono, Craft, Eleven Madison Park, Per Se, SD26, Tocqueville.

Pois é Rossini, você tinha razão. Pena que não dá para voltar no tempo e ouvir Paganini tocar violino, por isso eu fico com as trufas e os vídeos do Jascha Heifetz (sente o drama!).

Havaí, porque não?

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Se falei da fascinante Ásia não me contive em deixar de lado o “paradisíaco” Havaí que não pertencendo tecnicamente à Ásia está ali bem pertinho e por isso mesmo possui maioria de habitantes “asiáticos-americanos” (fácil de perceber a “vizinhança” no globo, um pouco mais difícil no mapa-múndi, mas você, meu leitor, já passou da quarta série, não?).

E a citação ao Havaí está neste blog tão perdida quanto as ilhas dos demais Estados Norte-Americanos.

Também nunca visitei. Também não me atrevo falar da culinária que parece ser obviamente baseada em peixes e frutos do mar, das espécimes habitantes do Oceano Pacífico cujas preciosidades só conheci as da sulina costa chilena.

Mas o George Clooney merece uma citação vá. As indicações que o filme Os Descendentes recebeu ao Oscar/2012 também (até porque escrevo isso alguns dias antes da premiação).

O filme, dado todo o meu preconceito inicial, me cativou. Não é uma obra-prima, mas é delicado e sensível, tal como foi meu Carnaval. E sim, uma das cenas que mais gosto se passa em um restaurante, porque não?

“… como uma infância”

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Embalada pela música do Beirut, “Postcards from Italy”, que inseri o link no post anterior, subi correndo as escadas atrás de um livro (dessa vez eu li) que me fez criar algumas boas lembranças daquilo que não vivi e de um lugar que ainda, repito, AINDA, não visitei.

Livros têm este poder, ou melhor esta magia! Assim como a comida, não?

E mais não vou falar, vou transcrever. E se você puder ler comendo um pecorino sardo* e “sardine al pomodoro” vai chorar ao final:

*aliás se alguém souber onde eu encontro, se é que é possível, me diz por favor!!!

Eu sei o que é ser feliz na vida – e a dávida da existência, o gosto da hora que passa e das coisas que estão em torno, ainda que imóveis, a dádiva de amá-las, as coisas, fumando, e uma mulher dentro delas. Conheço a alegria de uma tarde de verão, lendo um livro de aventuras canibalescas, seminu em uma chaise longue, na frente de uma casa de colina com vista para o mar. E muitas outras alegrias juntas: de estar num jardim à espreita e escutar o vento que mal move as folhas (as mais altas) de uma árvore; ou sentir trincar e desmoronar num areal a infinita existência de areia; ou, num mundo povoado de galos, despertar antes da alvorada e nadar sozinho em toda a água do mundo, à beira de uma praia rosada. (…)

(…) A alta costa foi escalada, e aqui, diante dessas orlas tão baixas, parece que já estamos no coração do altiplano. Principalmente se nos damos conta de que essa terra rosada das colinas é toda de rocha. Diria que se trata de um lago vulcânico. E na água afloram cardumes de um brilhante candor. Longos gemidos rompem o ar frio como as fraturas do próprio ar; pássaros brancos erguem voo e tornam a mergulhar, agitando as asas com deselegância: albatrozes, gaivotas…

Para continuar a leitura vá lá: “Sardenha como uma infância” de Elio Vittorini, Editora Cosac Naif.

Astrid & Gastón – en otro sitio

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O post que foi mais lido até hoje neste blog não foi escrito por mim. Muitas vezes este fato me tornou motivo de chacota por parte do amigo autor do relato mais acessado, até que, dia desses, vingança!, o recorde de visitas foi batido.

Mas eis que o recorde foi para a página institucional, o que, se for para fazer justiça, não tirou o troféu desse amigo. Pronto! No mínimo mais uma meia dúzia de piadas vou ouvir; o que, confesso, adoro.

E se fiz essa introdução toda é só para contar que o tal post popular conta a ida desse amigo ao Astrid & Gastón de Lima. E já que eu estive no começo do ano em Santiago, acabei jantando na filial chilena do grande Chef Peruano, contrariando minha meta de conhecer primeiro as casas originais, pela mesma influência daquele relato. OK, somada à influência do livro que tenho do Gastón Acurio e das diversas provocações incitadas via sua página do Facebook.

Mas isso não é pouco, uma vez que este mesmo Chef responde pelo restaurante La Mar e suas inúmeras filiais dentre as quais aquela ali do Itaim-Bibi. Sim, assim perto, sem necessidade (ao menos para mim) de qualquer condução aérea. E à qual eu resistia ir pensando em minha futura viagem a Lima.

Muito se debate sobre os tais Chefs que, apoiados em sua fama (isso não é uma crítica, 99% dos casos ela é justíssima), abrem inúmeras filiais de seus restaurantes mundo afora. Será que a comida feita a muitos milhares de distância do seu mentor mantém a qualidade necessária? É possível manter a qualidade quando esta depende em muito da matéria prima utilizada que, por ser um produto da terra, vai variar de país para país, até mesmo de cidade a cidade? E mais, não seria uma cozinha de autor, dizem alguns…

Ora, eu não sou contra o progresso, a globalização e nem mesmo contra pessoas talentosas que conseguem manter empreendimentos de sucesso mundo afora. Não acho que a única comida boa é aquela “de autor”. Não sou contra pessoas se tornando selo de qualidade de produtos que não vêem serem produzidos. Não acredito que um ofício como a culinária, cuja base é o artesanato, não possa ser ensinado e aperfeiçoado pelos aprendizes pela repetição dos atos.

Mas há sim um limite arriscado a não ser ultrapassado, principalmente pelo fato do capitalismo brutal exagerar no uso da mídia para tentar salvaguardar projetos com pouca consistência.

Um bom livro sobre o tema é o “Para onde foram os Chefs? Fim de uma gastronomia francesa” do François Simon. Outro que toca no assunto seguindo a mesma seara de criticar o declínio da gastronomia francesa é “Au Revoir to all that: Food, Wine, and the End of France”, do Michael Steinberger (não sei se foi publicado em terras tupiniquins). Ambos valem a leitura e a reflexão.

Pois bem. Debates de lado, acho que o Gastón Acurio faz um bom trabalho a distância sim, pois a minha visita à filial chilena não me decepcionou. Deve ser um grande gerenciador de pessoas, além de grande cozinheiro.

Pedi o menu degustação. Minha crítica? Achei o menu tímido. Se eu comparar com o que o meu amigo se deliciou em Lima, acredito que o filhote chileno era mais contido. E talvez aí esteja o pulo do gato. A ousadia só vale a pena quando a consistência de sua equipe e a matéria prima recebida pode garantir a mesma qualidade. Caso contrário, mantenha-se naquilo que já foi testado muitas vezes e sabe que não vão errar em seu nome. Ponto para eles.

Outra crítica? Essa não é justa pois não acho que seja o foco deles, além de entrar em jogo uma predileção minha, mas a apresentação dos pratos deixou a desejar. Sabor impecável sim. Por isso mesmo que acredito que merecia maior capricho com os detalhes de visual. Bom, julguem vocês pelas fotos.

Minha conclusão? Vou no La Mar aqui de São Paulo amanhã! Alguém me acompanha?



Feliz Ano Novo + Férias + Livros

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Feliz Ano Novo! Com dezessete dias de atraso, mas não com menos força de expressão.

2012 será o ano da inauguração do MIMO e mais do que nunca fiz votos, promessas e planos… mais do que nunca sonhei com um feliz ano para mim e para todos os que me rodeiam… sonhei em estar plena e satisfeita, mas principalmente em satisfazer e mimar aqueles que poderão ir ao MIMO este ano (e todos os seguintes).

Fiz um recesso de um mês aqui no blog mas não dos meus afazeres diários de montagem do restaurante e acompanhamento da obra. Volto com muitas coisas a contar aqui, apesar de, sim, ter tirado umas férias – 10 dias entre Santiago do Chile e Mendoza.

Este ano vem para mim carregado de expectativas, vem como o troféu daquilo que lutei em 2010 e 2011. Nunca fui de fazer balanços nem de planejar o futuro, mas minha vida deu tantas e diferentes voltas que estes últimos 30 dias tirei para meditar e avaliar, aprender e buscar, planejar e me fortalecer.

Estão vendo porque andei longe daqui? Não queria proferir palavras vazias de auto-ajuda ou ainda impropérios de raiva e insatisfação aos meus leitores enquanto buscava o equilíbrio entre aprender com minha retrospectiva e planejar 2012.

Afinal estou aqui para contar o dia-a-dia de uma obra, da montagem de uma empresa, algumas curiosidades e outras opiniões sobre assuntos diversos desse novo mundo gastronômico que resolvi ingressar, mas só.

E para começar devagar vou contar que férias para mim normalmente significa ler muitos livros. E entre os queridos Orhan Pamuk e o Philip Roth intercalei três livros adorados por gourmets: Ao Ponto do Anthony Bourdain; Sangue, Ossos & Manteiga, da Gabrielle Hamilton (certeza que alguém já deve ter dito que ela é o Bourdain de saias então nem vou me atrever a fazer este comentário); e o curtinho mas gracioso Só os patetas jantam mal na Disney, do Washington Olivetto.

Também não vou fazer nenhuma resenha dos livros já que pessoas mais competentes já as fizeram e basta buscar alguns textos no Google para se inteirar. Só quero dizer que são livros divertidíssimos, de fácil leitura, os dois primeiros com temas complexos colocados de forma leve que combina com férias de verão.

No campo da literatura gastronômica, que comecei a apreciar em 2008, os livros que mais me surpreendem positivamente ainda são os auto-biográficos. O Bourdain não perde a mão nessa continuação de seu livro de estréia, o best-seller Cozinha Confidencial. E a Gabrielle é cor e sabor, é a alma feminina contemporânea, sem pieguices, longe de estereótipos e com complexidade de desafios ímpar. Assim como o é o Prune, seu restaurante em Nova Iorque.

Aliás se tiver que escolher em visita à cidade, vá ao Prune da Gabrielle e não ao Les Halles que não é mais chefiado pelo Bourdain mas ainda nada muito no sucesso dos livros dele (aos marmanjos de plantão, eu já jantei ao lado da Natalie Portman lindíssima lá, e ela é frequentadora assídua).

E mais dicas não dou aqui porque Washington Olivetto faz isso com muito mais prosa em “Só os patetas jantam mal na Disney”. Vá com fé, você devora o livro em meia hora e já fica pensando como vai fazer para ganhar dinheiro (em um pouco mais de meia hora) que seja suficiente para visitar todos os lugares que ele cita.

Boa leitura!