Moto Cuisine – Chicago

Menu Degustação: agora o meu relato

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Depois do sucesso do post do Tiago sobre o seu primeiro menu degustação, resolvi também contar a minha primeira experiência. Meu relato não vai ser divertido como o dele, nem mesmo me transformei numa nova pessoa (será?), mas foi curioso então acho vale a pena dividir nem que seja pra vocês saberem que foi a primeira vez que eu literalmente comi “o” menu.

Foi no restaurante MOTO em Chicago no dia 31 de julho de 2010. Tá bom vai, minha memória não é tão boa assim, só sei o dia porque guardei o impresso com o menu e nele está escrito a data da visita.

O contexto: eu já sabia que ia abrir meu restaurante e já estava fazendo viagens com propósitos estritamente gastronômicos. Só não tinha me aventurado em menus degustação até então porque acreditava que não daria conta de comer mais de 10 pratos, nem de ficar horas sentada em um restaurante sozinha; também acreditava não ter muita vantagem sob o ponto de vista de minhas pesquisas porque meu restaurante dificilmente teria um menu degustação. Ou seja, estava bem contente com as escolhas de entrada, prato principal, queijos, sobremesa, chás e café.

Mas eu não tinha escolha no MOTO! A única opção lá é a degustação, o máximo que você interfere na escolha dos pratos ocorre ao ser questionado sobre restrições ou preferências alimentares.

E tudo mudou depois deste primeiro: verdade que percebi que eu estava sendo provinciana demais e deixando oportunidades passarem. Me arrependi de não ter provado as degustações dos restaurantes que fui anteriormente a este (posso voltar?).

O MOTO: acho que a maioria de vocês já deve ter ouvido falar de cozinha molecular, ou não? Tudo bem que já ouvi muita gente dizendo muita bobagem sobre isso, também já comi muita bobagem com este rótulo – ainda que eu não seja especialista no assunto, um faro para bobagens e um senso crítico de não acreditar em tudo que ouço e vejo pelo menos eu já criei.

Essa cozinha molecular não é comum no Brasil (acho que ainda não temos mercado suficiente para tanto), eu só conheço pinceladas aqui e ali (falando da Cidade de São Paulo) no D.O.M., no Mani e no Dois (este fechou até ano que vem, pena…). E mesmo assim, friso que são pinceladas, não restaurantes inteiramente baseados no conceito desta cozinha ou que preparem todo um menu dedicado a esta filosofia.

Já o MOTO é um fiel exemplar da cozinha molecular, eles se auto-definem como: Inventive. Innovative. Artistic. Imaginative. Thought provoking. Futuristic. Inspired. (…) an internationally recognized leader in the world of molecular gastronomy. (…) A“molecular tasting room,” dining at moto is like taking part in an ongoing multi-sensory science experiment.

Se eu concordo com esta definição? Sim.

Se eu acho que disso resulta boa comida? Ah, esta resposta é muito difícil porque o que eles fazem de melhor não é preparar aquela boa comida que nosso organismo e nossos padrões culturais estão acostumados a reconhecer (comida é cultura, certo?). É mais uma experiência com a comida e com os seus sentidos, é preciso estar aberto à contemplação; em outras palavras não vá lá pensando em matar a fome, vá lá pensando em apreciar um experimento que, no final, vai matar a sua fome.

Se eu comparar com outros menus degustação da “linha” cozinha molecular que depois experimentei, não acho que o MOTO foi o melhor no sentido de satisfazer meus anseios (não precisei nem mudar de Cidade para fazer esta comparação, saboreei mais a comida do Avenues e do Alinea); mas sem sombra de dúvidas foi o mais inventivo e surpreendente.

Na minha humilde opinião (e isso é bem pessoal, não é uma crítica profissional) talvez não tenho sido o melhor porque mesmo muita criatividade precisa manter um linha de raciocínio clara, coesa e harmônica para guardar substância e não se perder no abstrato. E ao final, após tantas surpresas, em um restaurante o que se quer ver entregue é um gran finale de explosão de sabores que não podem ficar camuflados no meio de tanta traquinagem. E infelizmente, apesar da genialidade de muito do que vi lá, algo se perdia e nem todos os pratos tinham este gran finale.

Isso não quer dizer que eu não gostei do MOTO, pelo contrário, voltaria lá com certeza (alguém quer me dar a viagem + vale jantar no MOTO de presente de aniversário? Já é na semana que vem… não custa perguntar, né?).

E em termos de hospitalidade eles são excelentes. Nem sempre o salão acerta a mão para deixar uma pessoa que vai jantar sozinha à vontade, mas eu me senti em casa lá. E como tinha um brasileiro trabalhando na cozinha, ele veio me cumprimentar e me levou para conhecer toda a cozinha e o laboratório deles (o laboratório parecia mesmo uma sala de “ciências” do futuro – acho que tem uma foto no site do restaurante). Pude ficar um tempo observando o vaivém das panelas, a logística para o controle dos pratos de cada mesa, a concentração invejável de todos os cozinheiros.

E saí de lá satisfeita. Não mudou o meu conceito sobre cozinha molecular (eu sempre dizia que era mais Santamaria que Adrià – para quem acompanhou a polêmica entre os Chefs espanhóis – o primeiro a defender a comida caseira e o último sendo o expoente e porque não, o criador, da cozinha molecular ou tecnoemocional como se convencionou chamar), mas aprendi a respeitá-la e apreciá-la quando bem preparada, quando feita com substância, quando embasada em muito trabalho, pesquisa e emoção.

Estão curiosos para saber o que tinha neste menu degustação? Vou decepcioná-los porque não tenho uma foto se quer! Eu perdi todas as fotos da primeira parte da minha viagem a Chicago… E ler o menu não refresca muito a curiosidade. Por exemplo, a primeira entrada chama “Snow man”. Alguém faz ideia do que seja? Sim é um pequeno boneco de neve que é posto no prato a sua frente. Com a carinha bem infantil. E tem sabor de que? Bom é um ceviche (não me perguntem de qual peixe) coberto por uma espuma cítrica (que forma o tal do bonequinho). E por aí vai…

E eu disse que comi o menu, não? É porque ele vem impresso num pão cracker que é posto na mesa como um couvert (com um purê de espinafre e alho). Pode comer, é estranho, não é bom, com certeza está longe de ser um ponto alto da refeição.

A galeria de fotos do site pouco se assemelha com o que comi lá (minha visita já foi há um ano atrás e eles atualizam o menu a cada estação), mas o menu comestível, pelo visto, ainda tá lá…

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