Nova Iorque, Londres e outras grandes cidades do mundo

Shokunin

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Comecei a semana inspirada por um pequeno artigo da New Yorker sobre o “sushi chef” Jiro Ono e o documentário “Jiro Dreams of Sushi”. Vale a pena ler a íntegra do artigo aqui.

Na verdade é um misto de inspiração e incômodo. Sabe quando você lê uma história de vida e querendo se justificar do porquê não ter a mesma genialidade, perseverança e força de vontade, cria todo um rol de argumentos factíveis que o colocam como vítima do sistema? Pois é. Vou explicar.

Jiro Ono possui um pequeno restaurante onde serve sushis em Tokyo. Segundo a New Yorker cobra algo como U$370,00 por uma refeição que dura uns 20 minutos. É fácil conseguir uma reserva lá? Claro que não. Você vai esperar alguns meses e usar algum tráfego de influência OK?

Possui três estrelas Michelin, um belo faturamento garantido pelas reservas antecipadas e uma história de vida impressionante que mais só vou saber quando conseguir ver o documentário (isso se vier parar no Brasil).

Pensa num japonês que não só respira, mas vive e exemplifica a cultura da constante busca da perfeição pela lenta, concentrada e analítica repetição incansável dos movimentos do artesanato. Como dito na New Yorker: kaizen*!

Pensa num Chef de cozinha que pode se dar o luxo de massagear um polvo por 40 minutos antes de servi-lo. Pode se dar o luxo de sempre comprar o melhor do melhor dos melhores ingredientes para servir. Que pode exigir fidelidade e respeito de toda a cadeia de fornecedores não aceitando quem não compartilhe com ele essa cultura da busca incessante pela perfeição.

Sentiu o recalque no “pode se dar o luxo’?

Diria eu: porque quem “pode se dar o luxo” senão aquele que tem 3 estrelas Michelin e um gordo faturamento garantido?

Peraí, mas a questão é: esse é o resultado visível e atual do trabalho, da perseverança, da ética e da filosofia de uma vida inteira, não?

Aí começo a me questionar. Sim, porque é claro que me inspiro com essas histórias. É claro que busco a perfeição para o MIMO que é hoje o meu projeto de vida. Mas não posso dizer que tenho sucesso em aplicar ou exigir diariamente perfeição em todos os detalhes do processo de meu trabalho.

Sou vencida porque tenho pressa. Fui vencida muitas vezes na obra do restaurante. Quis o melhor, busquei o melhor, planejei o melhor, mas longe estou de construir algo que beire a perfeição. As justificativas são diversas e é fácil achar quem vá passar a mão na minha cabeça e me confortar porque tocar uma obra no Brasil, abrir um negócio seguindo a burocracia brasileira, é coisa de maluco.

Mas quem disse que a vida do Jiro Ono também foi fácil?

Pois é. Perseverança. O que muitos de nós precisamos é mais concentração, mais ação e menos falação. Precisamos parar de admirar e sonhar para trabalhar e, sim, lograr e vencer. Precisamos não aceitar, mesmo que a agenda e os recursos sejam curtos e exijam rapidez de soluções.

Escolher e seguir um caminho que seja tão perfeito que te ilumine. Saber que a arte está na busca, entender que a perfeição é inatingível mas o processo é que nos eleva.

E ver o trailer desse filme me lembrou um pequeno livro chamado “A arte cavalheiresca do arqueiro zen” de Eugen Herrigel. Vá lá. Tem o livro em PDF na internet.

Sonhando…

*Kaizen (do japonês 改 善, mudança para melhor) é uma palavra de origem japonesa com o significado de melhoria contínua, gradual, na vida em geral (pessoal, familiar, social e no trabalho). Pode ser visto como um processo diário, cujo propósito vai além de aumento da produtividade. Quando corretamentamente executado, é também um processo que humaniza o ambiente de trabalho, elimina o trabalho duro, ensina as pessoas como realizar experimentos no seu trabalho usando o método científico e também como identificar e eliminar desperdícios nos negócios. Em geral, o processo sugere uma relação humanizada com os trabalhadores e com aumento de produção. (Wikipédia)

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Eu chorei…

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Eu chorei três vezes na minha vida: quando minha primeira ópera fracassou, quando ouvi Paganini tocar violino e quando um peru Souvaroff caiu na água em um piquenique em um barco.

A frase acima é do compositor italiano Rossini, aquele de Barbeiro de Sevilha, sabe? Se não, te ajudo com o vídeo abaixo. Não gosta de música clássica erudita? Devia aprender a gostar, vai por mim.

Esta citação está no livro “O ganso marisco e outros papos de cozinha” do Breno Lerner. O autor, com sua deliciosa prosa didática e conhecimento histórico, conta que as receitas Souvaroff se resumem a aves assadas recheadas com trufas.

E aqui cheguei no que eu queria. Pois bem, eu provavelmente já chorei mais de três mil vezes na minha vida – não que eu esteja contando, mas sou chorona mesmo, ou melhor, sensível, para parecer menos dramático -, e o fato é que ao ler aquela frase lembrei que também chorei ao comer trufas. A branca, de Alba, no restaurante Per Se de Nova Iorque.

Calma, não chorei no meio do restaurante contribuindo com o estereótipo de “caipiras deslumbrados” (que torram bastante dinheiro) dos brasileiros que visitam a Big Apple.

Contive a emoção, fiz até algumas piadinhas a respeito com o garçom (OK, piadas em línguas e países estrangeiros nem sempre funcionam e eu continuo tentando bancar a engraçadinha), caminhei mais de 10 quadras de volta ao micro estúdio em downtown até as primeiras lágrimas vencerem o vento gelado de outono.

Talvez não tenha sido culpa tão somente das deliciosas trufas. Era o conjunto da obra: o restaurante e a difícil reserva, a pompa, a vista do Central Park, a constatação de um (ou vários) sonhos realizados depois de dois meses viajando, mas talvez o principal tenha sido perceber o cuidado, o respeito mesmo do maitre ao manusear e discorrer sobre a iguaria.

Me emociona lidar com pessoas que são efetivamente apaixonadas pelo seus trabalhos. E foi isso que eu presenciei: a paixão contagiante.

Alguém que realmente dividia comigo uma emoção, que sabia que uma trufa vinda de Alba, no Piemonte, caçada por porcas (sim, o gênero feminino do animal, com aproximadamente 3-4 meses de idade) entre “carvalhos, nogueiras e álamos” ia fazer uma grande diferença naquele prato que me era servido. Alguém que sabia que eu valorizava cada detalhe daquele momento tal como ele cuidadosamente treinou sua brigada a valorizar e super atender a excelência desses detalhes.

Paro por aqui para não chorar de novo. Vou logo às fotos, não só das trufas do Per Se, mas de algumas outras que comi na mesma viagem.

Aliás, é bom lembrar que conheço muitas pessoas que não gostam de trufas e claro, entendo-as. O aroma pungente e não familiar ao paladar brasileiro pode afugentar alguns.

Isso para não falar dos excessos da indústria ao querer trufar azeites e tirar a essência do que representa uma iguaria. Trufa não é pra comer todo dia, meus caros capitalistas. E apreciá-las não é sinônimo de erudição ou status social. Apreciei o que você pode, o que te toca e o que ama, só assim você vai emocionar um estrangeiro como aquele apaixonado maitre do Per Se.

De azeites aromatizados, às lascas…

Galeria de Imagens: restaurantes A Voce, Aureole, Bouley, Casa Mono, Craft, Eleven Madison Park, Per Se, SD26, Tocqueville.

Pois é Rossini, você tinha razão. Pena que não dá para voltar no tempo e ouvir Paganini tocar violino, por isso eu fico com as trufas e os vídeos do Jascha Heifetz (sente o drama!).

Feliz Ano Novo + Férias + Livros

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Feliz Ano Novo! Com dezessete dias de atraso, mas não com menos força de expressão.

2012 será o ano da inauguração do MIMO e mais do que nunca fiz votos, promessas e planos… mais do que nunca sonhei com um feliz ano para mim e para todos os que me rodeiam… sonhei em estar plena e satisfeita, mas principalmente em satisfazer e mimar aqueles que poderão ir ao MIMO este ano (e todos os seguintes).

Fiz um recesso de um mês aqui no blog mas não dos meus afazeres diários de montagem do restaurante e acompanhamento da obra. Volto com muitas coisas a contar aqui, apesar de, sim, ter tirado umas férias – 10 dias entre Santiago do Chile e Mendoza.

Este ano vem para mim carregado de expectativas, vem como o troféu daquilo que lutei em 2010 e 2011. Nunca fui de fazer balanços nem de planejar o futuro, mas minha vida deu tantas e diferentes voltas que estes últimos 30 dias tirei para meditar e avaliar, aprender e buscar, planejar e me fortalecer.

Estão vendo porque andei longe daqui? Não queria proferir palavras vazias de auto-ajuda ou ainda impropérios de raiva e insatisfação aos meus leitores enquanto buscava o equilíbrio entre aprender com minha retrospectiva e planejar 2012.

Afinal estou aqui para contar o dia-a-dia de uma obra, da montagem de uma empresa, algumas curiosidades e outras opiniões sobre assuntos diversos desse novo mundo gastronômico que resolvi ingressar, mas só.

E para começar devagar vou contar que férias para mim normalmente significa ler muitos livros. E entre os queridos Orhan Pamuk e o Philip Roth intercalei três livros adorados por gourmets: Ao Ponto do Anthony Bourdain; Sangue, Ossos & Manteiga, da Gabrielle Hamilton (certeza que alguém já deve ter dito que ela é o Bourdain de saias então nem vou me atrever a fazer este comentário); e o curtinho mas gracioso Só os patetas jantam mal na Disney, do Washington Olivetto.

Também não vou fazer nenhuma resenha dos livros já que pessoas mais competentes já as fizeram e basta buscar alguns textos no Google para se inteirar. Só quero dizer que são livros divertidíssimos, de fácil leitura, os dois primeiros com temas complexos colocados de forma leve que combina com férias de verão.

No campo da literatura gastronômica, que comecei a apreciar em 2008, os livros que mais me surpreendem positivamente ainda são os auto-biográficos. O Bourdain não perde a mão nessa continuação de seu livro de estréia, o best-seller Cozinha Confidencial. E a Gabrielle é cor e sabor, é a alma feminina contemporânea, sem pieguices, longe de estereótipos e com complexidade de desafios ímpar. Assim como o é o Prune, seu restaurante em Nova Iorque.

Aliás se tiver que escolher em visita à cidade, vá ao Prune da Gabrielle e não ao Les Halles que não é mais chefiado pelo Bourdain mas ainda nada muito no sucesso dos livros dele (aos marmanjos de plantão, eu já jantei ao lado da Natalie Portman lindíssima lá, e ela é frequentadora assídua).

E mais dicas não dou aqui porque Washington Olivetto faz isso com muito mais prosa em “Só os patetas jantam mal na Disney”. Vá com fé, você devora o livro em meia hora e já fica pensando como vai fazer para ganhar dinheiro (em um pouco mais de meia hora) que seja suficiente para visitar todos os lugares que ele cita.

Boa leitura!

The Guardian e suas pautas “polêmicas”

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Eu adoro os ingleses (para quem me conhece pessoalmente, a resposta é não, não estou falando sobre isso que vocês estão pensando e ponto final, porque é feio fazer piada interna em locais públicos).

Inclusive eu li um livro da britânica Kate Fox chamado “Watching the English” (desconheço se há uma versão em português para este livro – acredito que não, nossa curiosidade sobre os ingleses não é tão aguçada assim) que avalia sob um ponto de vista antropológico, a cultura, o sarcasmo e os “bizarros” códigos de conduta dos seus conterrâneos. Diversão garantida para aqueles com um mínimo de percepção que já visitaram a terra da rainha que seja por 24 horas.

E essa introdução é só para dizer que de tempos em tempos eu me pego lendo o The Guardian (uma das maravilhas e das maldições da internet é o acesso a tantos jornais de tantos países) e fico alucinada com as pautas lá encontradas. Me seguro para não escrever um post sobre cada coisa que me diverte ao ler o periódico. Isso sem falar o tanto de pesquisas e estudos acadêmicos para provar obviedades do dia-a-dia (Ahh… porque eu sou uma “estatística-freak” mas mesmo assim não estudei a disciplina suficientemente para ir parar num centro de pesquisas desses!).

Se não fosse o The Guardian, se não fossem os ingleses e seus tabus, como pensaria eu (e você) sobre questões polêmicas como:

É justo restaurantes cobrarem uma taxa de clientes que levam crianças a restaurantes, mesmo que eles sejam bebês de colo e não utilizem cadeirões ou se alimentem no estabelecimento? Pense a respeito aqui.

É aceitável, ou o quão e como é aceitável deixar pessoas usarem o toalete de seu estabelecimento sem estarem consumindo no local? Tá bom vai, na terra do carnaval e dos inúmeros blocos e micaretas de rua, os donos de bares e restaurantes do Rio e de Salvador sabem bem teorizar sobre o assunto. Mas veja aqui a opinião dos ingleses com seus pints.

E eles também não perdem tempo em cutucar os americanos que herdando parte dessa cultura britânica andam discutindo se pizza é um vegetal (sim, você não leu errado a minha tosca tradução, mas leia o original aqui).

Mas bom é saber que depois da reviravolta gourmet dos ingleses (da qual já falei aqui) a vida o fish and chips anda em queda, como noticiado pelo querido Guardian.

 

Fotografia

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Eu sou apaixonada por fotografia (por apreciá-las, não tirá-las). Tanto que decidi que todos os quadros do restaurante vão ser fotos. Fotos urbanas para combinar com o clima que eu pretendo dar à decoração.

E eis que dia desse me deparei com o site do Ballerina Project e quase morri.  Muitas das coisas que eu amo reunidas: fotografia + ballet (dancei balllet clássico minha infância e adolescência inteiras e hoje continuo dançando Flamenco) + Nova Iorque e Boston.

Não demorei muito e já comprei uma foto para o MIMO.

Esta será pendurada na porta do banheiro feminino. Gostaram?

Agora aceito indicações de fotos para o banheiro masculino, OK?

 

 

Made in China, II

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Para continuar o post sobre a China, ou melhor, sobre a vontade de ir para a China, e ao mesmo tempo agradar aqueles que esperam ler algo relacionado à gastronomia neste blog, vou dar umas pequenas dicas.

A primeira é de literatura. Todos já devem ter ouvido falar que a culinária chinesa nem de longe se resume ao que vemos por aqui. Não mesmo! Mas não sou eu que vou clarear seus horizontes culturais e discorrer a respeito. Por total ignorância, claro.

O que importa é que li dois livros que me deixaram apaixonada, com vontade de saber mais a respeito e, por óbvio, de viajar para lá (um desses livros li em duas tardes visitando Chinatown em Nova Iorque. Juro. Até hoje não sei como consegui ler na confusão de sons e aromas; ou se foi justamente o background que me ajudou a devorar o livro em horas).

República Gastronômica da China, uma viagem salteada pela culinária chinesa, de Jen Lin-Liu; e

O último Chef Chinês, de Nicole Mones.

A outra dica é sobre filme. Não vou inventar a roda aqui. Não tenho medo de lugar comum e por isso mesmo cito o Wong Kar-Wai (o cara é chinês, apesar de ter imigrado cedo para Hong Kong. Ah! Você também achava que Hong Kong e China era tudo a mesma coisa. Sinto informar, não é não).

A minha indicação é o filme Amor à flor da pele, porque acho impossível não ter vontade de comer noodles depois de assisti-lo.

Para terminar e abrir a fome de vocês de vez, vou citar alguns restaurantes.

Meu chinês preferido em São Paulo é o Rong He na Liberdade.

O que está na lista “a visitar” e me arrependo de não ter ido até hoje principalmente após um relato empolgante de uma amiga é o Ping Pong no Itaim (temos que vencer nossos preconceitos contra franquias internacionais, às vezes podemos ser surpreendidos).

Já o chinês preferido em Nova Iorque (OK, fui pretensiosa agora já que nem visitei tantos assim) é o Green Bo; isso se eu conseguir parar de pensar no famoso pato de pequim do Peking Duck House Restaurant, ambos em Chinatown.

O mais incrível é que citei quatro diferentes restaurantes e a comida de cada qual não tem nada a ver uma com a outra. Dá para imaginar a imensa variedade de “culinárias” de lá?

E se você insiste em pensar no macarrão chop suey (para mim é imbatível), segue uma receitinha adaptada da minha apostila dos tempos de faculdade.

Se joga!

Ingredientes (para quatro pessoas, não famintas)

Macarrão yakisoba 200g
Brócolis japonês 50g
Cenoura 30g
Acelga 50g
Cogumelo Paris fresco 20g
Lombo de porco 50g
Peito de frango 50g
Camarão médio 100g
Lula inteira 100g
Sal refinado: a gosto
Açúcar refinado: uma pitada
Molho de soja 40ml
Alho 1 Dente
Amido de milho: quanto bastar para engrossar o molho (uma colher de sopa mais ou menos)
Caldo de frango 300ml
Óleo de soja; para untar a wok
Óleo de gergelim: a gosto (eu ponho uma colher de chá)
Pimenta do reino branca moída: a gosto

Modo de preparo
Cozinhe o macarrão (pelamor, deixe “al dente”)

Aquecer (MUITO) uma wok (se não tem vale o investimento). Despejar óleo só como se fosse untar a wok (não é uma fritura de imersão) e frite o macarrão até dourar. Retirar, escorrer e armazenar já no prato de servir, mantendo aquecido (põe dentro do forno bem, bem, bem, baixinho.

Cortar os todos os legumes e as carnes (e para explicar como… deixa eu ver, você já comeu esse macarrão por aí não? tem que tudo ficar na forma de retangulos finos, capice?)

Na mesma wok, acrescentar só um pouco mais de óleo para fritar a carne de porco, o frango, a lula e o camarão (também não é fritura por imersão, mão leve no óleo). Retirar e deixar escorrer. Reservar.

Ainda na mesma panela, dourar o alho, começou a exalar perfume junte a cenoura (já cortada), o brócolis (em floretes pequenos). Espere esses dois suarem um pouco e agora junte a acelga e o champignon (em fatias). Tudo suou e murchou? Volte e as carnes reservadas.

Misture bem, mas não deixe cozinhar demais as carnes, OK? Junte o molho de soja, a pimenta, o açúcar e o caldo de frango. Cozinhar bem pouco, tipo uns 30 segundos, e já polvilha o amido dissolvido em água para engrossar.

Desligue o fogo, junte o óleo de gergelim.

Agora e só servir por cima dos pratos com o macarrão.

Dá trabalho mas vale a pena!

 

Foto tirada no Rong He. Ui!

Menu Degustação: agora o meu relato

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Depois do sucesso do post do Tiago sobre o seu primeiro menu degustação, resolvi também contar a minha primeira experiência. Meu relato não vai ser divertido como o dele, nem mesmo me transformei numa nova pessoa (será?), mas foi curioso então acho vale a pena dividir nem que seja pra vocês saberem que foi a primeira vez que eu literalmente comi “o” menu.

Foi no restaurante MOTO em Chicago no dia 31 de julho de 2010. Tá bom vai, minha memória não é tão boa assim, só sei o dia porque guardei o impresso com o menu e nele está escrito a data da visita.

O contexto: eu já sabia que ia abrir meu restaurante e já estava fazendo viagens com propósitos estritamente gastronômicos. Só não tinha me aventurado em menus degustação até então porque acreditava que não daria conta de comer mais de 10 pratos, nem de ficar horas sentada em um restaurante sozinha; também acreditava não ter muita vantagem sob o ponto de vista de minhas pesquisas porque meu restaurante dificilmente teria um menu degustação. Ou seja, estava bem contente com as escolhas de entrada, prato principal, queijos, sobremesa, chás e café.

Mas eu não tinha escolha no MOTO! A única opção lá é a degustação, o máximo que você interfere na escolha dos pratos ocorre ao ser questionado sobre restrições ou preferências alimentares.

E tudo mudou depois deste primeiro: verdade que percebi que eu estava sendo provinciana demais e deixando oportunidades passarem. Me arrependi de não ter provado as degustações dos restaurantes que fui anteriormente a este (posso voltar?).

O MOTO: acho que a maioria de vocês já deve ter ouvido falar de cozinha molecular, ou não? Tudo bem que já ouvi muita gente dizendo muita bobagem sobre isso, também já comi muita bobagem com este rótulo – ainda que eu não seja especialista no assunto, um faro para bobagens e um senso crítico de não acreditar em tudo que ouço e vejo pelo menos eu já criei.

Essa cozinha molecular não é comum no Brasil (acho que ainda não temos mercado suficiente para tanto), eu só conheço pinceladas aqui e ali (falando da Cidade de São Paulo) no D.O.M., no Mani e no Dois (este fechou até ano que vem, pena…). E mesmo assim, friso que são pinceladas, não restaurantes inteiramente baseados no conceito desta cozinha ou que preparem todo um menu dedicado a esta filosofia.

Já o MOTO é um fiel exemplar da cozinha molecular, eles se auto-definem como: Inventive. Innovative. Artistic. Imaginative. Thought provoking. Futuristic. Inspired. (…) an internationally recognized leader in the world of molecular gastronomy. (…) A“molecular tasting room,” dining at moto is like taking part in an ongoing multi-sensory science experiment.

Se eu concordo com esta definição? Sim.

Se eu acho que disso resulta boa comida? Ah, esta resposta é muito difícil porque o que eles fazem de melhor não é preparar aquela boa comida que nosso organismo e nossos padrões culturais estão acostumados a reconhecer (comida é cultura, certo?). É mais uma experiência com a comida e com os seus sentidos, é preciso estar aberto à contemplação; em outras palavras não vá lá pensando em matar a fome, vá lá pensando em apreciar um experimento que, no final, vai matar a sua fome.

Se eu comparar com outros menus degustação da “linha” cozinha molecular que depois experimentei, não acho que o MOTO foi o melhor no sentido de satisfazer meus anseios (não precisei nem mudar de Cidade para fazer esta comparação, saboreei mais a comida do Avenues e do Alinea); mas sem sombra de dúvidas foi o mais inventivo e surpreendente.

Na minha humilde opinião (e isso é bem pessoal, não é uma crítica profissional) talvez não tenho sido o melhor porque mesmo muita criatividade precisa manter um linha de raciocínio clara, coesa e harmônica para guardar substância e não se perder no abstrato. E ao final, após tantas surpresas, em um restaurante o que se quer ver entregue é um gran finale de explosão de sabores que não podem ficar camuflados no meio de tanta traquinagem. E infelizmente, apesar da genialidade de muito do que vi lá, algo se perdia e nem todos os pratos tinham este gran finale.

Isso não quer dizer que eu não gostei do MOTO, pelo contrário, voltaria lá com certeza (alguém quer me dar a viagem + vale jantar no MOTO de presente de aniversário? Já é na semana que vem… não custa perguntar, né?).

E em termos de hospitalidade eles são excelentes. Nem sempre o salão acerta a mão para deixar uma pessoa que vai jantar sozinha à vontade, mas eu me senti em casa lá. E como tinha um brasileiro trabalhando na cozinha, ele veio me cumprimentar e me levou para conhecer toda a cozinha e o laboratório deles (o laboratório parecia mesmo uma sala de “ciências” do futuro – acho que tem uma foto no site do restaurante). Pude ficar um tempo observando o vaivém das panelas, a logística para o controle dos pratos de cada mesa, a concentração invejável de todos os cozinheiros.

E saí de lá satisfeita. Não mudou o meu conceito sobre cozinha molecular (eu sempre dizia que era mais Santamaria que Adrià – para quem acompanhou a polêmica entre os Chefs espanhóis – o primeiro a defender a comida caseira e o último sendo o expoente e porque não, o criador, da cozinha molecular ou tecnoemocional como se convencionou chamar), mas aprendi a respeitá-la e apreciá-la quando bem preparada, quando feita com substância, quando embasada em muito trabalho, pesquisa e emoção.

Estão curiosos para saber o que tinha neste menu degustação? Vou decepcioná-los porque não tenho uma foto se quer! Eu perdi todas as fotos da primeira parte da minha viagem a Chicago… E ler o menu não refresca muito a curiosidade. Por exemplo, a primeira entrada chama “Snow man”. Alguém faz ideia do que seja? Sim é um pequeno boneco de neve que é posto no prato a sua frente. Com a carinha bem infantil. E tem sabor de que? Bom é um ceviche (não me perguntem de qual peixe) coberto por uma espuma cítrica (que forma o tal do bonequinho). E por aí vai…

E eu disse que comi o menu, não? É porque ele vem impresso num pão cracker que é posto na mesa como um couvert (com um purê de espinafre e alho). Pode comer, é estranho, não é bom, com certeza está longe de ser um ponto alto da refeição.

A galeria de fotos do site pouco se assemelha com o que comi lá (minha visita já foi há um ano atrás e eles atualizam o menu a cada estação), mas o menu comestível, pelo visto, ainda tá lá…